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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Mário Quintana

A peça Sobre Anjos e Grilos fez brotar uma paixão avassaladora pelos versos singelos de Mário Quintana em meu peito aberto. Depois de um anjo e alguns grilos, pude visualizar aspectos intrincados de minha vida, dos quais tenho difícil acesso. Ou melhor, tenho difícil clareza; acesso tenho até demais. Falo a respeito de comportamentos muito atraentes, seduzidos em busca do gozo. Não do prazer, que fique claro, porque no gozo há pouco prazer e muita dor. O primeiro passo para desgrenhar-se desse lodo-todo é o comportamento posto na mesa, estudado a frio. Não apenas o nosso, mas também o do outro.

O que eu quero dizer é... Me dá uma ajudinha, Mário?

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...





"...os Anjos do Senhor
estuprando as mais belas
filhas dos mortais...
Deles, nascem os poetas.
Não todos... Os legítimos
espúrios:
um Rimbaud, um Pöe, um
Cruz e Souza...
(Rege-os, misteriosamente,
o décimo-terceiro signo do
Zodíaco.)"

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Cegueira Bendita



Ando perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tatear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!

Não vejo nada, tudo é morto e vago…
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
´Stendendo as asas brancas cor do sonho…

Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo
E não ver nada nesse mar sem fundo,
Poetas meus Irmãos, que triste sorte!…

E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados
A sofrer pelos outros 'té à morte!

Florbela Espanca

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

parece tranquilizante como chá de camomila.

mas é revigorante como café preto.

Fervente,

a ponto de queimar.

A.M.

A tradução de um gemido

Do hálito à axila...

estremeço e temo...

transgrido.

A.M.

Corporais



Incorporo você

poros

pelos

porra

pela pele da flor

pela orla da dor

encravada no prazer





Somos galáxias girando no vácuo

expremendo lirismos &lágrimas

decompondo as regras na medula



resplandescendo no crepúsculo



o entre-tom borrado, indefinido

banido das classificações cartesianas




cravamos cartas-punhais mutuamente


nos olhos

na boca


e no destilar da hemorragia

agimos entre vagidos

fugidios e fulgurantes


de um cio. de amantes.

A.M.

Corporais II - Criação Pictórica

Respiração suspensa

o antidilúvio

o quasedelírio




desejo engrossando desejo

desejo endossado


sexo inchado


pronto a te apunhalar



o colapso dos corpos

expandindo os lapsos de tempo



abraço partido em

braços

mãos

dedos



peitos pulsando

recôndito encontro

mal dito.



e uma despedida.


Despedida que, subvertida,
não se fará farta nem forte.

A.M.

antipoético ensaio

Tua voz melodiosa

dança nos meus ouvidos


e obscuro ...

...em silêncio ...


...vou dizendo ...

(com gestos e ações [co]medidas)

...com os olhos semi-abertos ...


é leve, não passa pela garganta; não é poluível por palavras. É bonito, tem bordas e pontas. E atravessa, extravaza, ecoa. Assusta, sem afugentar.










- mas, gosto de ti.
Mais: gosto de ti.

A.M.

Quatro Mãos ou Gênese Corporal

Perambulamos
sob a cintilância artificial dos postes
castigando a vigilância inquisitorial dos fortes
mãos entrelaçadas
lançadas em um soco cálido
tocar malicioso de carícias
enfrentamos chuvas, proibições,previsões
e
do vício do corpo,
tivemos o transparente vislumbre...
atenções, tesão, tentação:
e do pecado, se fez prazer.

A.M.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Pequeno Pássaro

Força estranha que entorpece
Que perpassa dois mundos
Te atravessa como flecha
Nos ares moribundos.

Como as ondas te debates
Contra a rocha que resiste
E aos poucos te retiras
Transformado pela terra. Oceano.

Foi-se o instante. Virou semente.
Abandonado, órfão e pequeno
Mas a terra o recebendo
Faz-lhe cravo, faz-lhe flor,
Faz alta árvore que cresce.

Os ventos todos percebendo
Giram forte e tuas folhas
Alcançam tontas distâncias.

Voas então com os pássaros
Brincas leve com o vento
Olhas a lua e ela é toda tua,
Em tudo em ti,
Em teu pensamento.

Mila Mariz

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

maldito



No curso da vertigem, sangrei

na missa negra, orei.


o diabo me cuspiu, deu pão, esculpiu.


névoas tomaram minhas palomas desavisadas.


minha gargalhada sangrada cortou as copas das árvores, na floresta densa.


sou os vermes.

o vento.


corro seiva-bruta.


me sugam...


atinjo a mais alta nervura.

A.M.

abrindo as portas da percepção



do primeiro chute & choque,
você APRENDE com irremediável amadorismo
que letras e boleros
bulas e fábulas
nunca serão o bastante
Falas alheias - o contorno prometido - se transformam na muralha esburacada
por onde ratos se movem, como cachoeira
Ver, ouvir, sentir,
talvez gritar
e escutar o próprio grito, que não é gemido;
ter vivido tanto e mesmo assim não ter aprendido
que viver não é uma questão de conceitos,
campos de concentração das sensações
viver é um eterno rascunho ...
que não quer ser plágio.

A.M.